segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A força do sorriso de Marciano, o menino que venceu a raiva


Sertanejo teimoso, Marciano se recusou a morrer. Foi o primeiro no Brasil a sobreviver à raiva humana / Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
JC
O dicionário ensina os significados da palavra impossível: “o que não pode ser, existir, acontecer” ou “o que é difícil demais de fazer ou conseguir”. Marciano Menezes da Silva derrotou todos. Ele fez, existiu, conseguiu, sobreviveu. Até hoje não há uma explicação única, objetiva. Milagre? Ciência? Fé? A resposta, seja ela qual for, se esconde num sorriso. Tão largo, sincero e raro quanto a força que carrega. O menino virou homem. Tinha 15 anos quando um morcego, no mormaço da madrugada, cravou-lhe o destino. Sertanejo teimoso, nascido resistência antes de tudo, recusou-se a morrer. Desafiando a medicina, Marciano venceu a raiva humana. Ao longo dos últimos 11 anos, desde o ataque naquele domingo quente do dia 7 de setembro de 2008, não precisou superar só a doença. Forjado no meio do mato seco, estrada de barro, quase uma hora distante do Centro da cidade, o menino-coragem teve que lutar para não ser vencido pela pobreza. Virou, ele próprio, uma história cheia de significados.Legenda
Não foi fácil reencontrar Marciano. Aos 26 anos, o jovem mora no mesmo sítio, onde a família nasceu e se criou, na zona rural de Floresta, a 430 quilômetros do Recife e a sete horas da capital. No Sertão onde Marciano vive, caatinga adentro, quase não há sinal de celular. Internet existe, mas é cara. Então, nem pensar. Desde o retorno para casa, há exatos dez anos, a miséria sempre assombrou a recuperação do garoto. Marciano retornou a Floresta em setembro de 2009, depois de quase um ano internado no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no Recife, onde fez o tratamento inédito e vitorioso. De tão precária, a casa de taipa, onde ele foi mordido enquanto dormia, deixou de ser morada. A família teve que se mudar para a casa da avó, de tijolo e cimento. Mas no canto novo não havia sequer banheiro. Na época, o JC acompanhou a viagem de volta. Marciano improvisava o banho na varanda. Para espantar o calor, a cama do menino era colocada de frente para a porta de casa. A pobreza extrema continuava lá, à espreita, turvando a alegria que se instalou na aguardada chegada. O retorno para casa trazia e escancarava a realidade de volta. 
Ao longo dos anos, a dureza da vida deu umas tréguas, poucas. Devagarzinho, o agricultor João Menezes, 62, pai de Marciano, conseguiu construir um quarto para o filho, com um banheiro adaptado. As sequelas deixadas pela doença são severas: o jovem não anda, tem um desvio na coluna, dificuldade para abrir e fechar as mãos e para movimentar os braços, além de alteração na fala. Há uns três anos, Marciano ganhou, de doação, uma cadeira de rodas motorizada que o permite passear pela casa e lhe confere um tanto de autonomia. Mas as conquistas feitas até aqui podem estar ameaçadas. Há dois anos, o jovem parou de ter acompanhamento especializado nos exercícios para fortalecer os músculos do corpo e melhorar a comunicação. As sessões de fisioterapia e fonoaudiologia eram feitas no Centro de Floresta, com profissionais da prefeitura da cidade. “A médica disse que eu não precisava mais ir, que eu já sabia fazer em casa”, diz Marciano, que fala com dificuldade, mas tem total clareza de raciocínio. Inteligente, o jovem acompanha tudo e, apesar da timidez, não perde a chance de participar das conversas.

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